PARA QUEM CUIDA

É tudo pra ontem

Como AmarELO salvou o ano letivo de 2021

Publicado em: 28/03/2022 às 10h44
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Por Aline Queiroz

Acredito que só a educação pode transformar o mundo, assim como creio que só a arte pode transformar a educação em algo mais significativo, marcante, indelével. Aqui escrevo, “como quem manda cartas de amor” para contar como AmarElo salvou nosso ano letivo de 2021 na EMEF Érico Veríssimo, que fica na Brasilândia, e onde lecionei por 10 anos.

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O cotidiano da escola sempre foi “movimentado” com as situações comuns a quase toda escola, conflitos nada surpreendentes em um espaço cheio de seres humanos. Até que, em 2020 e 2021, todas as escolas foram esvaziadas pelo medo da doença e da morte. 

“É tudo pra ontem” é uma expressão que faz muito sentido dentro de uma escola. E depois de termos ficado quase um ano e meio com escolas fechadas, era urgente retomar as aulas, os laços, os encontros, a possibilidade de construir conhecimento juntos.  Ao mesmo tempo, veio a missão de “recuperar o tempo e as aprendizagens perdidas”. Corrigir o passado. Como? Como garantir a presença dos alunos fora do horário de aula para repor dias parados? Como fazer com que as atividades fossem significativas?  O nosso fazer pedagógico era “pra ontem”: urgente e ao mesmo tempo necessário como maneira de ressignificar o passado. “Vamos pensar em um projeto!” Vamos.

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Um dos colegas, professor de História, Thiago Wesley Custódio, sugeriu usar um “texto-base” pouco comum em uma escola para planejar o projeto: a obra do rapper Emicida, AmarElo ao Vivo, lançado em 2019. O show foi o ponto de partida, e o documentário sobre o show (“É tudo pra ontem”) seria nosso ponto de chegada. O AmarElo tingiu nossa escola inteira: entrou no planejamento de História, Ciências, Língua Portuguesa, Artes, Educação Física, Inglês. O projeto (nomeado de AmarÉrico) foi estruturado em três partes e em cada uma aprofundamos um direito de aprendizagem/social dos meninos: em “Plantar” falamos do Direito à Memória; em “Regar” do Direito à Cidade e em “Colher” do Direito à Diversidade.              

Fizemos de tudo! Discutimos Ancestralidade, Direito à Memória e à Verdade, plantamos feijões e girassóis (os feijões foram colhidos e transformados em caldo para os alunos e os girassóis abriram na última semana de aula de 2021), meditamos e discutimos a importância do silêncio (silenciar e não ser silenciado), criamos diversas obras de arte (de mandalas de sementes até pinturas no tecido e atividade com costura), analisamos atentamente muitas músicas do álbum AmarElo, falamos sobre racismo,  produzimos um ensaio fotográfico e um desfile que valorizava a beleza negra, refletimos sobre a cidade e os processos de urbanização, fizemos uma oficina de teatro com um texto sobre Carolina Maria de Jesus, andamos pelo território e ouvimos muita música. Tivemos uma gincana na Semana do dia das crianças, e a escola se encheu de crianças sedentas por diversão… E nós aprendemos e nos divertimos muito com elas.

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A partir das letras das músicas do álbum, tivemos discussões e propusemos criações. E nossos meninos não nos decepcionaram: escreveram Haicais, pintaram e costuraram sua identidade, plantaram e cuidaram das plantas, observaram e ressignificaram lugares, ideias, roupas, histórias, seus próprios nomes e identidades. Uma das últimas atividades do projeto foi visitar o centro de São Paulo e o Teatro Municipal. Fizemos uma visita curta, porém linda e emocionante! Nas palavras de uma das estudantes, nos sentimos “ricos” lá dentro: de sonhos, de possibilidades, vontade de saber mais. No fim, o que desejamos desde o princípio com este trabalho foi despertar neles o desejo de voar “mais alto que drones”, “pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. 

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Em 2020 eu morri… Como todo mundo, morri um pouco. Mas não em 2021. Nesse ano quisemos renascer, “estilo parto”, com as dores, com todo esforço necessário, e o mais importante, coletivamente: das entranhas do outro, da força e do sangue uns dos outros. Afinal, é tudo o que temos, uns aos outros. E mais do que sobreviver, nós buscamos vida, vivências, vivacidade… Sabemos que muitos olham para a periferia e pros nossos meninos e “não guentam ver livre, imagina ver rei”… Eles estão avisados que a corrida é injusta e mais longa pra eles. Mas creio que saem cheios de vontade e de esperança. Sou grata pelo contato tão intenso com o álbum e com as ideias presentes nele. E principalmente pela troca que ele possibilitou entre nós professores com os estudantes. Emicida já é imortal, “quem divide o que tem é que vive pra sempre”, e marcou a memória e a trajetória de grande parte de uma comunidade escolar. Gratidão infinita! O rapper nem imaginava, mas lá em 2019 já estava salvando o ano letivo de 2021. 

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Aline Queiroz. A escola é nóiz!

Professores envolvidos no projeto: Alessandro Rivaldo(Ed. Física), Aline Queiroz (Língua Portuguesa), Gisele Cristina Pereira (História), Janaína Freire (Arte), Natália Pereira (Ciências), Rodrigo Marques (Arte), Thiago Wesley Custódio (Informática Educativa), Lara Cristina N. Queiroz (Inglês), Ana Cristina Benedito (POSL), Beatriz Garcia Costa (Coordenadora pedagógica), André Luís Gabriel (coordenador pedagógico), Tatiana de Fátima S. Korodi (Geografia), Fernanda Fonseca Paes (SRM) E Irmava Maria Vieira Silva (Matemática).

Direção em 2021: Elizabeth de Holanda Limeira

Assistentes de direção em 2021: Alessandra Aro e Adriana Assato.

Coordençaõ pedagógica em 2021: André Luis Gabriel e Beatriz Garcia Costa.

Direção em 2022: Rogério Tadeu Gonçalves Marinelli

Assistentes de direção em 2022: Claudio Tomaz Santos e Simone Rodrigues Parizi

Coordenação pedagógica em 2022: André Luis Gabriel e Valéria Andrade Silva.

 

 

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